sábado, 13 de agosto de 2011

Assim estava escrito




"Pergunto-me mesmo se os anos oitenta, cinematograficamente tão ocos, não tiveram como verdadeiro cinema e como heróis sedutores os Borg, Connors, McEnroe e Lendl, os únicos que souberam destilar o tempo e que deram lições de ver a uma geração inteira. Fiquei sempre surpreendido quando amigos meus ficavam surpreendidos com a minha capacidade de escrever sobre o ténis, como se lhes quisesse mal por não compreenderem que se trata absolutamente da mesma coisa que o cinema, ao menos o velho cinema, o da mise en scène, da topografia. Não era preciso empurrarem-me muito para que encontrasse passing-shots em Fritz Lang e inserts em Miroslav Mecir."
Serge Daney, Persévérance

A infância da arte


“O fato de eu assistir a tantos filmes parece de fato assustar as pessoas. Muitos cineastas fingem que nunca vêem nada, e isso sempre pareceu muito estranho para mim. Todo mundo aceita o fato de que escritores lêem livros, escritores vão a exposições e inevitavelmente são influenciados pelo trabalho dos grandes artistas que vieram antes deles, que os músicos ouçam música antiga além das coisas novas... Então por que as pessoas acham estranho que cineastas – ou pessoas que querem tornar-se cineastas – vejam filmes? Quando você vê os filmes de certos diretores, você pensa que a história do cinema começa para eles em torno dos anos 80. Os filmes deles provavelmente seriam muito melhores se eles tivessem visto um pouquinho mais de filmes, o que vai contra aquela idéia estúpida de que você corre o risco de ser influenciado se assistir filmes demais. Na verdade, é quando você vê muito pouco que você corre esse risco. Se você vê muita coisa, você pode escolher os filmes pelos quais você se influencia. Às vezes a escolha não é consciente, mas na vida há coisas que são mais poderosas do que nós, e que nos afetam profundamente. Se eu sou influenciado por Hitchcock, Rossellini ou Renoir sem perceber, melhor pra mim.” Jacques Rivette

domingo, 7 de agosto de 2011

Mozart brasileiro

Residência fixa


Uma forma cómoda de travar conhecimento com uma cidade é procurar saber como se trabalha, como se ama e como se morre. Na nossa pequena cidade, talvez por efeito do clima, tudo se faz ao mesmo tempo, com o mesmo ar frenético e distante. Quer dizer que as pessoas se entediam e se dedicam a criar hábitos. Nossos concidadãos trabalham muito, mas apenas para enriquecer. Interessam-se principalmente pelo comércio e ocupam-se, em primeiro lugar, conforme sua própria expressão, em fazer negócios. Naturalmente, apreciam prazeres simples, gostam das mulheres, de cinema e de banhos de mar. Muito sensatamente, porém, reservam os prazeres para os domingos e os sábados à noite, procurando, nos outros dias da semana, ganhar muito dinheiro. À tarde, quando saem dos escritórios, reúnem-se a uma hora fixa nos cafés, passeiam na mesma avenida ou instalam-se nas suas varandas. Os desejos dos mais velhos não vão além das associações de boulomanes, os banquetes das amicales e os ambientes em que se aposta alto no jogo de cartas.

Dirão sem dúvida que nada disso é característico de nossa cidade e que, em suma, todos os nossos contemporâneos são assim. Sem dúvida, nada há de mais natural, hoje em dia, do que ver as pessoas trabalharem de manhã à noite e optarem, em seguida, por perder nas cartas, no café e em tagarelices o tempo que lhes resta para viver. Mas há cidades e países em que as pessoas, de vez em quando, suspeitam que exista mais alguma coisa. Isso, em geral, não lhes modifica a vida. Simplesmente, houve a suspeita, o que já significa algo. Oran, pelo contrário, é uma cidade aparentemente sem suspeitas, quer dizer, uma cidade inteiramente moderna. Não é necessário, portanto, definir a maneira como se ama entre nós. Os homens e as mulheres ou se devoram rapidamente, no que se convencionou chamar ato de amor, ou se entregam a um longo hábito a dois. Isso tampouco é original. Em Oran, como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão, somos obrigados a amar sem saber. (Camus, em A Peste)

mais provocações


O único programa que presta na TV brasileira.

A história do olho


Se o olho não fosse ensolarado não poderia avistar o sol. Nem mais nada!... O órgão pelo qual compreendi o mundo é o olho! (Goethe)

Meu Amigo Oscar Wilde

sábado, 6 de agosto de 2011

Botero


Memórias de um estrangulador de conceitos


“Espero morrer antes de fazer TV. Vai contra os meus princípios, apesar de não tê-los” (Guará Rodrigues)

Guará viveu em Paris na época da Nouvelle Vague, foi ao cinema em Roma com Maria Schneider, acompanhou Hitchcock nas filmagens de "Frenesi" em Londres – quando foi o protagonista de "Memórias de um Estrangulador de Loiras" (foto), de Júlio Bressane.

Fez nessa época a rota entre Holanda e Índia, com uma câmera e um gravador, colhendo imagens para o que considera o primeiro road-movie brasileiro, "Boom Shankar – louvação que dá o iniciado ao inalar o cone de haxixe aceso".

O mundo hoje realmente tá muito chato!